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30 de nov de 2015

A groselha do meu ser: Matthew Shepard and James Byrd, Jr. Hate Crimes Prevention Act... - A parte em que eu falo minhas groselhas sobre a lei.

Barack Obana na ocasião da assinatura do decreto, em 2009,
conversando com a irmã de James Byrd e a mãe de Matt Shepard.
Foto cedida por International Network of Street Papers.


E aí a postagem ficou mega longa, e eu tive que repartir em duas...

Na verdade, além de contar a história do Matt, e mostrar que é perigoso martirizar alguém, qualquer que seja a pessoa, pois pessoas são pessoas, e nenhum ser humano é perfeito, eu queria, com essas postagens, suscitar aquela discussão sobre os tais crimes de ódio, e a discriminação. O decreto americano leva também o nome de James Byrd , Jr. Um negro que teria sido assassinado por racistas no mesmo ano da morte de Matt. E vou pesquisar sobre o caso, quem era Byrd e as circunstância todas, para fazer uma postagem à respeito, eu prometo. Não sei muito sobre o caso, por isso vou guardar para depois, e aposto que posso fazer um link com outro caso desse tipo muito famoso também, e incrementar bem a discussão numa outra ocasião. Aqui, com esta postagem mega longa, vamos groselhar um pouco. 


Aí o governo americano aprovou aí este decreto que permite punições maiores para crimes de ódio. E é aí que fica tudo muito confuso pra mim. Vamos pegar o caso de Matt como exemplo. Como saber se era mesmo um crime de ódio? Por que alguém falou que era? Aaron em seu depoimento disse que ficou irado com a cantada e resolveu matar o Matt. Isso é crime de ódio, então? Ok... Mas, como provar? Por que Aaron poderia ter falado isso para escapar dos agravantes. Se a teoria de Jimenez estiver certa, foi uma briga entre traficantes. E Aaron, pelo que entendi, nunca tinha sido preso por tráfico. Ou seja, ele escapou de mais essa acusação jogando a falácia, talvez, da cantada. Com o novo decreto a pena dele seria aumentada... Mais do que duas perpétuas consecutivas sem condicional??? Sim, haveria pena de morte. Mas ele escapou dela com o acordo, e não com atenuante de crime nenhum. Ele confessou o crime, para escapar da morte. E qualquer odiador de negão, bicha, judeu, muçulmano ou o diabo à quatro que queira escapar disso, é só oferecer um acordo à promotoria, que a lei norte-americana prevê esse tipo de coisa em qualquer crime. 

Em que situação é legal torturar uma pessoa durante horas, depois largá-la amarrada no meio do mato, sem possibilidade de socorro??? Por que, passar uma lei que prevê mais punição se o seu motivo foi por que a pessoa era bicha, significa que se você é só um psicopata que resolveu matar aleatoriamente, ou se seu assunto com a pessoa era mais pessoal e não voltado a toda uma classe de pessoas, então, tá tudo certo, e sua punição será menor, mesmo que você tenha feito a pessoa sangrar após arrancar uma a uma as unhas dela com alicate. Tá tudo certo se não tiver sido por que a pessoa é negra, homossexual ou por rezar pra um Deus diferente do seu. 

Dito tudo isso, as classificações me preocupam. Estamos numa era em que é comum botar os humanos em categorias, e formar panelinhas. As crianças não aprendem que existe uma só raça: a humana. Hoje, tudo tem um nome e uma classificação. E não acho isso tão benéfico. Uma vez, na escola, quando criança, questionei por que tínhamos de ir uniformizados. Minha questão foi genuína. Uma coleguinha, que era bolsista, não tinha dinheiro pra comprar o segundo jogo de uniforme. Então, se sujasse o único que tinha, ficava sem roupa para ir à escola. E eu questionei à diretora, por que não podíamos deixar essa coleguinha ir com roupas normais, para ela não perder as aulas. Não lembro o nome da diretora, pois sou péssima com nomes, mas se você foi minha diretora no Madre Cabrini, aqui de São Paulo, na segunda parte da década de oitenta, obrigada pela lição. Essa eu carreguei pra vida. A resposta da diretora: o uniforme iguala todo mundo. Então, se estamos todos com a mesma roupa, eu não vou saber quanto dinheiro meu coleguinha do lado tem, baseado na qualidade da roupa que ele usa. Vou julgá-lo por suas ações, e não por como ele se veste. 


Foto antiga, para título de preservação de identidades das crianças,  do colégio I.L. Peretz.
Desculpem, não achei nada antigo do Madre, não tenho fotos minha digitalizadas,
e não queria expôr crianças que ainda estão frequentando a escola. 

Durante muito tempo na vida, eu, ativista da igualdade de direitos, achei essa resposta unilateral. Por que depois do Madre Cabrini, estudei no Brasílio Machado, escola estadual aonde os uniformes não eram exigidos, e isso possibilitou que eu conhecesse meus colegas mais à fundo. Eles não eram só alunos do BM. Eles tinham histórias próprias, tristezas, alegrias, preferências... Eu também... Tinha meu jeito de me vestir, de me maquiar. E isso criava identidade, e não via nada de errado com isso. E sofri bullying pelo meu jeito diferente de ser... Na época não liguei uma coisa com a outra. Tem coisas que só o tempo de vida, a maturidade, nos faz ver. Eu não tinha esse olhar julgador, de exclusão. Eu incluía. Eu faço isso até hoje. Diferenças aqui comigo são bem vindas... Por que gosto de conhecer histórias diferentes da minha. E julguei o mundo com essa lente. Minha diretora, já sabia que nem todos são assim. Nem todos vão olhar pro outro ser humano com essa mesma disposição, então, para evitar constranger quem é diferente, melhor mascarar todas as diferenças... 

Eu não sei se esta é a melhor saída. Mas entendi o ponto de vista da minha diretora, depois de adulta, quando vi uma criança linda, cheia de vida, e perfeita no jeitinho dela, ser discriminada por um único atributo: ela era baixinha. Como adulta me indignei. O que os pais dessas outras crianças estão ensinando pra elas? E foi quando lembrei da história do uniforme. E entendi que a intensão era que nós, alunos daquela turma, víssemos todos como iguais... Bela intensão... Mas não somos iguais, e o ensinamento deveria ser outro: não somos iguais, e não tem nenhum problema com isso. Mas, como embutir isso na cabeça de alguém?

Morgan Freeman - conhecido por alguns com o Deus - deu uma entrevista para o jornal televisivo 60 Minutos uns anos atrás, e era no dia da consciência negra lá nos Estados Unidos. O repórter perguntou o que ele achava sobre aquele dia, e ele respondeu, para espanto do perguntador, que achava uma palhaçada. Aí, quando perguntado por que, ele respondeu com outra pergunta: existe o dia da consciência branca? Sua cultura precisa ser festejada num dia especial? Ao que o repórter continuou, elucidando ser judeu. Morgan, então, disse: melhor ainda. Você gostaria de um dia do orgulho judeu, para lembrar a todos dos horrores do holocausto? Isso faria você se sentir melhor? A conversa seguiu mais um pouco, e o repórter perguntou, para concluir: e como vamos, então, acabar com o racismo? Morgan respondeu: pare de falar sobre ele! Não me chame de negro. Me chame de Morgan. Eu não te chamarei de judeu. É só parar de falar. 

Deus... Quer dizer, Morgan Freeman. Mas Deus acho que ficou bem contente
com essa escolha de ator para interpretá-lo.
Foto cortesia de Happy Sonship.
Acho que Morgan andou conversando com a diretora do Madre Cabrini! Hahaha. Por que, de maneira bem mais poética e assertiva, ele sugeriu que uniformizemos os seres humanos. Somos todos diferentes, e não é preciso nomear as diferenças para saber que elas estão lá. Mas a classificação é desnecessária, e só causa desconforto. Meus amigos negros, são só meus amigos. Não me refiro à eles como negros. Eles têm espelhos em casa, eles sabem que são negros, não precisam que eu os alerte disso. Igualmente com meus amigos gordos, e assim por diante. Ninguém precisa que eu defina quem são. E não definir deixa tudo melhor, já que o ser humano é complexo. Lição aprendida, senhor Shawn Stockman, fã de heavy metal... E 1/3 da banda de R&B mais famosa do planeta... Canta romance, faz coro canônico, é negro... Mas veste camiseta do Metallica em casa... E é assim que é legal. Por que Shawn não é só um homem negro criado num gueto da Filadélfia. Na verdade, ele é só Shawn, é único em sua complexidade, e ordinário em sua existência. É só ser humano, e tem sangue vermelho, e sofre, e se machuca, e vibra, e quer coisas... Como todos nós. Vistamos, então, o uniforme de seres humanos, por favor. 

Filosofei, a postagem ficou absurda de longa... E acabei dividindo-a em duas partes. E quanto à lei? Então...Eu, JulyN, não gosto. Por que categoriza. Transforma Matt, por Exemplo, numa vítima que merece atenção, só por ser gay. Como se as outras vítimas não merecessem atenção. Mas fico na dúvida se ela não é mesmo necessária. Por que chegamos num estado de coisas que a punição tem que começar a ser uma ferramenta educativa. Coletivos são perigosos. Crimes de ódio normalmente envolvem coletivos, e suscitam muitas groselhas grupais, e ódios idiotas que se fazem mais poderosos na panelinha. Um sociólogo ou psicólogo vai poder explicar melhor que eu. Então, fico na dúvida se damos remédio para o sintoma - crimes de ódio - ou se tomamos a séria atitude, e idiotamente ideológica, de tentar à longo prazo mudar a visão do ser humano... Será possível? E entendo que, para quem perde um ente querido, a punição do perpetrador é um alento. É o reconhecimento do mal causado. Com tudo isso, fico confusa. Não sei se temos solução, como raça - a humana, que é a única que existe. Se leis idiotas de que reforçam punições em casos específicos, categorizando ainda mais e segregando os indivíduos até na morte e no crime, só reforçam a onda de ódio que já existe. Idéias, amigos pensadores?



JulyN.

2 comentários:

  1. Oi Ju, penso q isto ñ é um caso inédito, sempre há fatos como este maquiados
    com imediatismos sociais visando objetivos políticos.
    Tenho um amigo que concorda com anarquismo em manifestações políticas, um outro tbm é a favor mas acha q anarquismo sem educação no Brasil não contribui em nada. Eu já ñ entendo onde determinados "anarquistas intelectuais" querem chegar com depredações de espaços culturais, escolas e ônibus exigindo mais "infra-estrtuta" frente à atual política do Brasil. Afinal ñ seria esses estabelecimentos q deveriam ser protegidos
    pelo povo para funcionar como o núcleo pra exigir a tal infra-estrutura ao invés de ser depredados? Penso ser diferente quebrar tudo na Noruega, Suécia ou Alemanha e quebrar td no Brasil.
    Nunca fui fã desta filosofia de q temos q provocar a todos inclusive qm ñ precisa ser provocado sob a justificativa "construtiva" de tirar o cidadão da zona de conforto. Existe inúmeras formas de expor uma visão de forma equilibrada, Mas respeito quem discorda disso, pois vejo q a sociedade é dividida por suas distintas extensões de raciocínio.
    Qualquer energia lançada de forma violenta voltará cm consequências violentas assim como preconceitos desenvolvidos agressivamente na sociedade. Acho q as redes sociais está dando a oportunidade do povo mostrar sentimentos extremistas de ambos os lados q estavam adormecidos a muito tempo e nem sempre são proveniente apenas de ódio,
    mas tbm por situações culturais mal resolvidas. A militância LGBT de 10 anos atrás é
    completamente diferente da atual. existe uma distinção em quem tem interesse realmente em desenvolver cidadania política séria e outra pra quem acredita q resolver problemas emocionais, demonstrar suas revoltas, ódios, desejo de vingança por seus sofrimentos e traumas pessoais frente ao senado ou na mídia justifica ser militância política. O q devemos fazer? só nos resta sempre procurar a verdade, saber até onde tais acusações são realmente racismo, homofobia, anti-semitismo e xenofobia.

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  2. À J Zuffo... Te marquei na postagem justamente por saber o quão pensador você é, e estava especialmente interessado na sua opinião à respeito. E você nunca decepciona. Acabou abrindo mais ainda o leque da discussão, pincelando em cima da 'baderna' que ocorre hoje no Brasil. E vamos deixar claro que 'baderna' e anarquia são duas coisas diferentes. Como garantir, então, em uma anarquia, que todos os cidadãos serão respeitados, se não houver um poder maior para garantir isso? E isso não se torna um paradoxo? É respeito quando sou obrigada a engolir determinadas situações que não me agradam, por medo da punição? Continuo com a pergunta: será que o ser humano tem mesmo solução? Ou viveremos cada vez mais, daqui por diante, anomalias como esta em que a lei tem especificar cada detalhe e garantir punição diferenciada para um crime que é simples: alguém matou alguém com requintes de crueldade. Mas vamos dar nomes, e classificar, e especificar, e botar rótulos em tudo, por que ser humano não está mais bastando??? É isso???

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