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15 de abr. de 2016

Sessão Pipoca: Concussion (Um homem entre Gigantes).

Foto cortesia de A Hora do Filme.
E eis-me aqui pra finalmente poder comentar à respeito do filme e do ator que foram o centro de uma polêmica em Hollywood. Concussion, ou em Português, Um Homem entre Gigantes. Enquanto fazia meu artesanato, botei o filme pra rodar...

Já vou começar desfazendo o suspense e dizendo que sim, o filme foi muito esnobado pelo Oscar. Mas não estou falando apenas de Will Smith. Já voltamos a isso. Falemos, primeiro, por alto, sobre o que é esta película...

É uma história real sobre um médico nigeriano super gabaritado - cheio de especializações e muito estudado -, que descobre, post mortem, durante uma autópsia, uma condição cerebral no jogador Mike Webster, que justificaria sua demência e depressão no fim da vida. Com suicídios e mortes estranhas de vários jogadores recém aposentados da mesma geração de Mike, a correlação das condições cognitivas precárias destes jogadores no fim da vida, com tal lesão, fica inevitável. E, correlacioná-la com o que todos eles tinham em comum - o futebol americano - fica inevitável.

Acompanhamos, à partir disso, a luta de doutor Omalu em se fazer ouvir pela poderosa NFL - Liga Nacional de Futebol Americano -, e todas as implicações políticas, financeiras e pessoais que suas descobertas trazem. Apesar de seguirmos a história do ponto de vista de doutor Omalu, interpretado por Will Smith, o filme apresenta uma parada de coadjuvantes de dar gosto, interpretando jogadores que o público americano aprendeu a amar, alguns já mortos por conta da doença descoberta, e também os chefões e médicos da liga, estes todos ainda vivos... Ou seja, o filme teve que ter algum cuidado aí, tentando, claro, não sacrificar a história. E acho que fizeram um excelente trabalho. 

A direção foi generosa, a fotografia é bem legal, a edição deixa um bocadinho à desejar, mas nada que prejudique o andamento do enredo, e as atuações estão de muito boas a soberbas. Will Smith começa tímido, mas aplaudo o fato dele ter conseguido abstrair da minha cabeça quem ele é durante uma hora e meia. Nós realmente esquecemos de MIB, Rap, ou qualquer outra gracinha... Até Fresh Prince of Bell Air. Merecia indicação? Talvez. Ainda acho que sua melhor atuação foi em À Procura da Felicidade. 

Pra mim, os grandes destaques em termos de atuação neste filme são os atores David Morse, que interpreta a lenda do futebol americano Mike Webster, e Alec Baldwin, no papel do médico que apóia doutor Omalu em suas pesquisas. A parceria com Will nas cenas com diálogos mais carregados acabou sendo uma boa coisa para o rapper, por que Alec dá uma elevada no nível, e Will acaba acompanhando. Se fosse ser conservadora, indicaria Alec à melhor coadjuvante. Por mérito, eu quebraria tudo e indicava David Morse, que me fez chorar na única cena longa que ele tem no filme. Boa parte do tempo Mike Webster no filme é um grupo de lâminas de laboratório. Ele aparece vivo só no início do filme, para que entendamos o que aconteceu. A cena em que ele, desesperado, pede ajuda de seu amigo e médico - papel de Alec -, e acaba sendo tratado com calmantes, ao invés de receber uma atenção mais qualificada... Nossa... É de cortar o coração. Você sofre com ele, e se este jogador de fato passou por uma crise tão pungente de depressão e demência, a NFL deveria se envergonhar muito de ter tirado a humanidade de um homem desta forma. Esse foi o tanto que a cena me impactou... E aí, em seguida, ele aparece já morto, na sala de autópsia, sujo e desgrenhado, com a boca aberta e roxa. Você chora.... De tristeza mesmo... Belíssimo trabalho do ator. Tô imaginando que ele devia ser fã desse Mike Webster. 

Gostei? Demais da conta. Filme corajoso, com fator humano muito bom... Bom filme mesmo, e dou o braço à torcer. Jada Pinkett até não estava tão errada nos protestos dela contra a falta de indicação do Will ao Oscar. Não foi a melhor coisa que ele fez, mas devo admitir que ele se despiu de Will Smith ali. A gente quase esquece que é ele interpretando o médico... O filme merecia mais cartaz, sem dúvida. 



JulyN. 
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18 de fev. de 2016

Um assunto que está incomodando...

Apresentação de Kendrick Lamar no Grammy.
Foto cortesia de Tenho Mais Discos que Amigos.
Olá, amigos e amigas. Tudo belezinha aí? Mais uma vez eu tento muito, com muita força, ignorar um assunto, por que acho que certas coisas não merecem cartaz, de tão absurdas que são. Mas aí as coisas vão se acumulando, os fatos vão se repetindo, e a gente tem que acabar discutindo certas coisas, que não deveriam nem mais fazer parte de nossos vocabulários. Desta vez estou sim falando de racismo. 

Aguardem minha postagem sobre o Grammy deste ano no Addicted to Music. Mas aqui, quero falar de algo específico que aconteceu, por que estamos lidando com o assunto em época de premiação. Quando nenhum candidato nas categorias de atuação, negro, foi indicado ao Oscar deste ano, vozes se levantaram. Especialmente da esposa daquele que sim, merecia a indicação, e foi solenemente esnobado: Will Smith. E aí poderíamos dizer tratar-se de dor de cotovelo. Afinal de contas, o maridão não foi indicado num filme que ela produziu...

Fato é que Will não foi o único esnobado. Jason Mitchell, de 'Straight Outta Compton', também foi. Mas aí poderíamos argumentar que esses foram os únicos dois grandes filmes a ter atores negros em papéis de destaque este ano, talvez? Ou que, Leonardo Di Capprio vem sendo esnobado há muito tempo, e ninguém nunca falou que a academia não curte gente de olhos azuis, sei lá... Se tivesse parado por aí, estava tudo certo...


Aí veio a premiação da música. Grammy Awards. E estavam todos contentes. Kendrick Lamar, rapper que lançou ano passado um álbum super inovador, que arrancou elogios até mesmo de David Bowie pela qualidade, foi sim indicado a 11 prêmios. Negada feliz e contente... Justiça estava sendo feita. Era o que todos achavam até vir a noite da premiação. Kendrick ganhou 5 gramofones. Todos em categorias específicas de música feita predominantemente por negros... O principal questionamento veio na premiação de álbum do ano, aonde todos acreditavam que sim, o dele era o melhor. Taylor Swift acabou levando este gramofone, pasmando a toda opinião pública, com exceção dos fãs dela, claro. Nada contra a moça, acho até que ela é uma excelente influência para os jovens. Mas comparar o álbum dela, que é de um pop bacana, bem feito, mas superficial, à porrada Hip Hop de Lamar, com profundidade e discussões existenciais e sociais importantes, além de um trabalho de melodia muito bem feito, com influências do Jazz, Rock, Gospel, R&B e do próprio Hip Hop, é de fato ignorar o bom gosto musical da população geral. 


Taylor Swift. Foto cortesia do Guinness Book.

E aí comecei a me perguntar o que acontece com esse povo que vota nessas premiações. Por que parece que ser bom, apenas, não está bastando. As pessoas agora têm que se enquadrar num molde. E isso é deveras perigoso. Por que perdemos variedade. Tem coisas que espero a noite do Grammy para conhecer. Música que resolvo dar atenção depois que vejo lá. E, numa nota pessoal minha, senti muita falta de Jason Derulo. Enfim... Perdemos quando a indústria fica assim, babaca, cheia de convenções e moldes pré-estabelecidos. Independente de raça... Por que Kendrick Lamar de fato fez um álbum muito digno. Jason Derulo fez o melhor álbum de R&B dos últimos tempos. Jason Mitchell escreveu seu nome na história do cinema, roubando a cena num filme em que o destaque era o filho do produtor, cópia do pai. Will Smith fez um excelente trabalho contando uma história real, que merece ser vista... E perdemos quando não reconhecemos, quando não damos espaço na mídia para esses trabalhos. Eu mesma, estava muito desgostosa com os rumos da música, simplesmente por que Kendrick Lamar não chega a mim como chega Taylor Swift, com a mesma força, e a mesma máquina de propaganda. 



Enfim, estamos ficando assim babacas, culturalmente falando?



Ah, é, numa outra nota pessoal, claro, ouvi inúmeras notícias sobre a morte de David Bowe. Ouvi algumas sobre a morte de René Angelil, marido e empresário de Celine Dion... Não ouvi nadinha na mídia popularesca sobre o falecimento de uma grande lenda da música: Maurice White, fundador e produtor da banda Earth, Wind & Fire.


Tudo isso junto e hoje um amigão meu postou um belo vídeo de Muhammad Ali falando sobre racismo. E discutimos - no sentido de debater - à respeito. Eu falava pra ele que gosto da maneira como Morgan Freeman vê as coisas. Nós, como sociedade, temos o péssimo costume de dar privilégios às minorias como forma de combater injustiças. Aqui no Brasil, especialmente. É o dia da consciência negra, é a cota para ingresso na faculdade, é a lei específica que pune com mais rigor quem maltrata negros... Pois bem, olha como vejo as coisas - que é a abordagem de Morgan Freeman -: se não temos um dia da consciência japonesa, judaica, cristã e o diabo à quatro, por que temos que ter o da consciência negra? E o tal dia do índio também. Nesse dia respeitamos essa pessoas. No resto tá tudo bem massacrá-los, né? damos cotas pro negro entrar na faculdade, ao invés de melhorar o sistema de ensino para que ele possa competir com todos os outros nas provas de vestibular, em pé de igualdade. E, punimos mais quem espanca um negro do que quem espanca uma criança branca. Por que? Bater em negro não pode, mas na criancinha branca tá tudo ok? Quero mostar o vídeo de Muhammad Ali para vocês... Achei o cara de uma eloquência e de uma inteligência social ímpar naquele momento. 




Muhamed Ali fala sobre o racismo nos Estados Unidos com ironia e inteligência.
Publicado por Iconoclastia Incendiária em Sexta, 8 de janeiro de 2016


Colocamos meninos e meninas com baixa escolaridade - por conta das péssimas condições da escola pública - na faculdade e os formamos profissionais diplomados que não sabem nem escrever paralelepípedo. Um negro diplomado que não sabe ler e interpretar texto ainda é um negro, e ainda vai sofrer preconceito por toda uma vida. Dar a ele um diploma, somente, não vai corrigir a cabeça de cada brasileiro que age com racismo. O que esse país precisa é educação para todos, de qualidade, independente da cor da pele, do credo, da nacionalidade. Mora aqui, e paga imposto, tem direito a uma escola que forme um bom cidadão. Simples assim. E enquanto tratarmos os negros como uma minoria oprimida que precisa de incentivos e subsídios para que nossas consciências fiquem mais leves, eles continuarão segregados, pois continuarão de fato não recebendo o mesmo tratamento das outras pessoas. Os negros não precisam de privilégios. Precisam sim é serem tratados como cidadãos. Ser negro não exclui ninguém de nada. Pelo menos, não deveria.

Quanto à indústria do entretenimento norte-americano, acho que ela reflete o que se passa na sociedade como um todo. Aqueles que não têm aparência de príncipes e princesas europeus, ou que incomodam com suas verdades bem mostradas em filmes e músicas, acabam por serem excluídos, por que incomodam àqueles que querem permanecer ignorantes. Cabe a nós, as pessoas que acham que não é essa a maneira de conduzir as coisas, mostrar ao mercado que queremos sim ver e ouvir esses artistas. Comprando seus álbuns, indo a seus shows, indo aos cinemas prestigiá-los, perturbando os CEO's das grandes empresas quando aquele filme bacana que você queira ver não for colocado em rotatividade nos cinemas da sua localidade. Demonstrar monetariamente o que queremos. Consumir qualidade, e não aparência. Quem sabe assim revertemos essa situação. Claro, tô partindo do pré-suposto que queremos qualidade e variedade, né? Por que se de fato não rola essa 'querência', então ignorem todo esse texto, por que está tudo certo...



JulyN.
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