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22 de fev de 2013

Conceitos, Modelos e Definições.


Oi, gente. Resolvi fazer este post sobre um ocorrido esta semana. Achei pertinente falar sobre este assunto, por que aprendi muito com uma situação em específico, e espero que todos vocês aprendam. Às vezes a vida me reserva professores inusitadamente deliciosos, e salas de aula abençoadas. 

Não vou falar exatamente onde o evento ocorreu, por que não quero ofender ninguém, com uma identificação injusta. Estava eu ao ar livre, praticando um esporte num lugar público. Gosto de visitar os parques e clubes da cidade. Acho que devemos usufruir desses espaços que são mantidos com o dinheiro de nossos impostos. Um dos guardas responsáveis pelo local, enquanto estive lá, paquerou uma outra moça que praticava esportes, fez comentários grosseiros sobre alguns de seus colegas, e manteve um comportamento bastante inapropriado enquanto esteve em seu posto de vigia. Algumas crianças também estavam lá, brincando. E ele as tratava com uma rudeza de fazer desgosto a qualquer profissional que trabalhe em lugares assim, onde a presença das crianças é esperada. Até aí, eu fiquei meio indignada com tudo, mas foi só. Frequento este parque há algum tempo, e foi a primeira vez que vi um funcionário do local com um comportamento inapropriado, e por isso presumi que ele não fosse durar muito tempo no cargo. 

Como sempre vou sozinha a estes lugares, ou com pouca companhia, e os esportes que gosto de praticar exigem um time, acabo sempre me integrando com outros frequentadores. Alguns deles se tornam bons amigos. Uma menina - adolescente - e seu irmão - um pré-adolescente - brincavam juntos e pareciam legais. Puxei conversa com eles, e pouco depois estávamos nós três 'brincando' juntos. Estava tudo correndo bem, quando o guarda que eu já havia reparado antes veio até o menino, desafiando-o a conseguir cumprir tarefas que normalmente são aptidões de esportistas treinados. Em tom de descrença, o segurança fez apostas com o menino, dizendo que ele seria punido se não cumprisse as tarefas. Não entendi muito bem o que estava acontecendo. Mas achei que os dois se conhecessem, então não interferi. O menino cumpriu todas as tarefas, e quando o segurança já ia dar outras tarefas, um outro funcionário veio até o menino e o cumprimentou pela coragem e destreza, encerrando a brincadeira. 'Trato é trato. Ele fez tudo o que se propôs a fazer. O menino é fera. Agora deixa ele quieto aí.

Enquanto os dois seguranças se afastavam do menino, e nós voltávamos para a nossa brincadeira, congratulando o garoto pelo que tinha feito, ouvimos alguns comentários saindo da boca do segurança... 'Claro que ele ia conseguir fazer tudo. É traficante, viciado e ladrão. Isso pra ele é mole!' Neste momento eu vi o sorriso de orgulho que o menino carregava se desfazer. A carinha dele ficou séria, e ele foi para um canto do campo que ocupávamos. Ficou quieto, à sombra. Eu fui até ele, e baixinho, sem que ninguém mais ouvisse, perguntei: 'ele te conhece? Por que falou essas coisas? Não ligue. Não fique chateado. Ficou chato pra ele, por que está todo mundo se perguntando por que um segurança está destratando uma criança. Ele é que ficou mal, e não você.' O menino então me disse: 'eu o conheço. Ele é meu vizinho na comunidade em que moramos. Esse é o jeito dele de brincar. Mas aqui ninguém me conhece, e eu não acho certo ele ficar me chamando dessas coisas que ele falou, por que as pessoas podem pensar que é verdade. E não é! Eu moro na comunidade por que minha mãe não tem dinheiro pra morar aqui nesse bairro chique. Mas ela trabalha e eu estudo e faço tudo igual a todo mundo. Não sou bandido.' Fiquei com muita dó do menino, não por ele ser de comunidade, pobrinho, nem nada disso. Mas senti que ele ficou com muita vergonha, e com medo de ser discriminado por algo que não era verdadeiro. Eu disse a ele que o segurança tinha agido errado, e que era bom que ele aprendesse a não ser igual. Que fosse sempre um ser humano melhor, e que desta forma coisas boas iam acontecer à ele. 

Mais tarde, em outro assunto, dei o troco no segurança, acabei por 'humilhá-lo' diante dos seus colegas. Não gosto de 'dar uma de superior', de cuspir títulos ou de humilhar as pessoas em público, por que não sou melhor que ninguém. Mas certas pessoas merecem... Não é esse o tom da conversa aqui. Fiquei mesmo impressionada com o garoto. Já sabia tudo o que vou falar pra vocês agora. Mas quando vemos acontecer na nossa frente, e comprovamos a teoria, tudo ganha um colorido diferente. 

O sorriso lindo daquele menino tão educadinho, que foi tão respeitoso comigo, e me aceitou na brincadeira dele, se desfez feito um torrão de açúcar na água... E ele ficou realmente preocupado com o que as pessoas em volta iam pensar dele. Por que ali, num espaço público da Vila Clementino, onde ninguém sabe que ele é morador de comunidade, ele se sentia algo mais. Um menino comum praticando esportes. Não que morar em comunidade o torne melhor ou pior que os outros meninos do mundo. Mas infelizmente, pelo que percebi, ele é categorizado desta forma, e as pessoas determinam o tratamento que darão a ele por causa disso. E ele estava certo. Certo demais da conta em dizer que morar na comunidade não é sinônimo de bandidagem. Não tem que ser. Dá pra ser uma criança bacana, educada e feliz na periferia também. 

Conversamos sobre muitas coisas. Ele me mostrou a marca de uma mordida profunda que levou de um cachorro de rua, que vivia nos arredores da casa dele. Perguntei se depois disso tinham sacrificado o cachorro. Ele disse que não, e me olhou com estranheza. 'Eu adotei o cachorro!' Eu achei estranho! 'Você adotou o cachorro que te mordeu?' 'É que eu corri em direção à ele. Eu estava brincando, e corri. E ele é de rua. Já deve ter apanhado muito. Deve ter pensado que eu estava correndo pra bater nele. Então se defendeu. Uns dias depois que ele me mordeu, ele foi atropelado, e quebrou a pata. Eu o levei pra casa, por que mesmo com a pata quebrada ele não parava quieto. Aí botei pra dentro pra ele não ficar vagando, até a pata sarar. E aí sarou, e eu convenci minha mãe a ficar com ele pra sempre. Assim ele não morde mais ninguém. Por que agora que ele é meu, eu aviso as pessoas pra não correrem perto dele, por que ele fica nervoso.

Meu professor! Sabe o que vi neste menino? A consciência coletiva que vivo dizendo que o brasileiro não tem. O amor que os cristãos dizem que têm, e não têm... Numa criança que mora numa comunidade, não frequenta nenhuma igreja, passa boa parte do dia sem a mãe (mas fala super bem dela), que frequenta a escola pública ruim de nosso país... Enfim... Ele vive todas as situações de risco que nós, do alto de nossa falsa sabedoria, julgamos ser ideais para a criação de um marginalzinho  ou, minimamente, de um ser humano folgado, espaçoso e sem noção. E ele é mais educado, mais humano, mais inteligente e mais amoroso do que muitos de nós, do que eu inclusive. Amei este menino, e fui embora fazendo uma oração em minha cabeça, pedindo a Deus que não permita que a dureza da vida torne-o algo diferente do que ele já é. Por que o que ele é, é perfeito.

Hoje, vou voltar ao parque no fim da tarde. Preciso fazer uma hora de atividade física, pois estou precisando melhorar meu condicionamento físico... Talvez o encontre lá, não sei. O que sei é que ontem ele me ensinou muita coisa, e talvez nem saiba o quão inteligente e bacana ele é. termino este post fazendo um apelo a todos. Cuidado com as coisas que você fala pra uma criança. Vamos ter mais consciência, e começar a cuidar de verdade de nossa infância. torço pra que outros pequeninos me surpreendam desta forma, e rezo para que Deus guarde-os a todos do mal que a vida pode lhes trazer. Vocês já imaginaram que bacana este menino citado aqui hoje, um adulto com a mesma característica moral? Não é o que todos nós queremos?







JulyN

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